Emilio Orciollo Netto dá vida a Issacar em A Vida de Jó, síntese de sabedoria prática e fé inabalável. Como pai do protagonista, ele funciona como alicerce emocional e espiritual de um lar que, antes das provações, respira ordem, trabalho e esperança. Sua presença estabelece o tom da primeira fase: um mundo regido por valores sólidos, onde cada gesto cotidiano tem peso formador. Issacar orienta pelo exemplo, evita discursos grandiloquentes e prefere a palavra precisa, capaz de acalmar, corrigir e inspirar.
A atuação de Emilio aposta na contenção: olhar atento, movimentos econômicos, voz segura que só se ergue quando a verdade precisa ser afirmada. Não há santidade rígida, e sim humanidade madura. O personagem demonstra firmeza sem autoritarismo, compaixão sem permissividade. A cada conversa com o filho, o público percebe um repertório de memórias, provérbios e orações que se tornam recursos para enfrentar tempos áridos. Essas cenas íntimas — refeições, rituais e partilhas — dão textura à família e ampliam o impacto dos acontecimentos futuros.
Na dramaturgia, Issacar cumpre a função de raiz: ele ancora o sentido de comunidade, negocia com vizinhos, trata do trabalho e harmoniza conflitos. Quando aconselha, conjuga tradição e lucidez; quando silencia, confia que a fé também fala sem ruído. Ao formar Jó no cotidiano, prepara-o para suportar perdas sem perder o centro. Assim, mesmo ausente de algumas etapas da história, permanece como lembrança ativa, quase uma voz interior que orienta escolhas e sustenta a esperança.
Emilio Orciollo Netto encontra nessa figura um território fértil para nuances: um homem crente, sensível e trabalhador, que sabe recuar para que o filho cresça. Seu Issacar é chama discreta, porém constante, e por isso inesquecível. Ele permanece na memória do público como referência de paternidade, caráter, serviço e confiança diante do mistério sereno.