» "Crispim é um jeca sem pudor", diz Emilio Orciollo

"Crispim é um jeca sem pudor", diz Emilio Orciollo

Emilio Orciollo Netto é um sujeito perfeccionista. Desses que não se contentam com as habituais aulas de prosódia oferecidas pela Globo e resolvem pesquisar “in loco” o sotaque caipira de um personagem.

Quando soube que interpretaria Crispim, um autêntico matuto em Alma Gêmea, pegou o primeiro ônibus para Capivari, cidadezinha no interior de São Paulo onde nasceu sua avó materna, Dona Aneris. Lá, o ator tratou logo de refestelar-se num dos bancos da praça principal para observar o jeitão arrastado de falar dos moradores da região.

Posso garantir que o Crispim não é tão caricato quanto imaginam. Eu mesmo conheci uns cinco ou seis iguais a ele. O Crispim é um jeca sem pudor“, define.

Aos 31 anos, Emílio Orciollo garante que, por vezes, teve receio de só fazer papéis de “ragazzo” em novelas, como o Giuseppe de O Rei do Gado e o Marcello de Esperança, em 2002. “Fazer o Crispim é uma vitória porque estou fazendo algo completamente novo. Além disso, sempre fiz tipos dramáticos. Pela primeira vez, tenho a chance de mostrar um outro lado“, pondera.

Dia desses, Emilio arrancou gargalhadas da equipe técnica na cena em que Crispim faz xixi nas calças ao beijar Kátia, interpretada por Rita Guedes. “A gente sempre trabalha para que o personagem seja um sucesso, mas não esperava tanto. Não tenho mais dúvidas de que Deus realmente ajuda a quem trabalha“, brinca.

O jeito abilolado e, por vezes, “marrento” de Crispim, porém, não faz sucesso apenas nos bastidores de Alma Gêmea. Outro dia mesmo, o ator sentiu a popularidade de seu personagem ao ser abordado por um vendedor de queijo coalho que, numa praia da Zona Sul do Rio, enaltecia a forma com que ele não deixa a irmã namorar. “Você está de parabéns, meu rapaz! Também não deixo ninguém chegar perto da minha irmã. Se tentarem, meto a porrada!“, vociferava o ambulante. Por um momento, o ator até pensou em desfazer o mal-entendido e explicar que tudo aquilo não passa de brincadeira. “Mas achei melhor não contrariar o sujeito“, confessa, bem-humorado. Leia a seguir a entrevista com o ator:

P – Do Giuseppe Berdinazzi, de O Rei do Gado, para cá, pode-se dizer que o Crispim seja o seu personagem mais popular?
R – Sem dúvida nenhuma. Disparado, o Crispim é o personagem que mais chamou a atenção do público. A gente trabalha sempre para que o personagem seja um sucesso, mas confesso que, no caso do Crispim, não esperava tanto. A sintonia entre o Crispim, a Mirna e o Tio Bernardo, aliás, também é impressionante. Os astros estão conspirando a nosso favor. Estou vivendo um momento muito feliz na minha carreira.

P – Onde você foi buscar inspiração para criar esse matuto amalucado e brigão?
R – Costumo dizer que o principal instrumento de trabalho de um ator é a observação. Todo ator que se preza tem de estar sempre antenado com o mundo e com as coisas que acontecem ao seu redor. Embora tenha nascido em São Paulo, passei boa parte da minha infância em Capivari, no interior do estado, e em Lambari, no interior de Minas. Quando o Walcyr me ligou e disse que estava escrevendo um matuto para mim, viajei na mesma hora para Capivari, a cidade natal da minha avó, e me sentei em muito banco de praça para ouvir o pessoal falar. Ficava na minha só observando o jeito de falar da galera. Por isso mesmo, posso garantir que o Crispim não é tão caricato como parece. Nas minhas andanças pelo interior de São Paulo, conheci uns cinco ou seis iguais a ele.

P – O Walcyr Carrasco sugeriu também que você assistisse a alguns filmes do Mazzaropi…
R – Verdade. O Crispim tem muito, não só do Mazzaropi, mas do Chaplin também. Os dois são muito lúdicos, ingênuos. Assisti a inúmeros filmes do Mazzaropi para fazer a novela. Honestamente, só conhecia o trabalho dele de ouvir falar. E o pior é que rolava até um certo preconceito. Achava que ele fazia um cinema comercial. Mas me enganei. O Mazzaropi é maravilhoso. Quem me dera conseguir falar como ele…

P – Em algum momento, você não ficou receoso de deixar o Crispim caricato demais?
R – Pois é, fiquei. Mas, para que ele não ficasse caricato ou caísse no ridículo, tive de fazê-lo com verdade. Não posso querer fazer graça com o Crispim. E sabe por quê? Porque as situações em que ele se mete e o jeito dele falar já são suficientemente engraçados. As pessoas riem dele não porque ele é engraçadinho, mas justamente porque é trágico. As coisas que vivem acontecendo com ele, convenhamos, beiram a tragédia. Ele beija a Kátia e faz xixi nas calças. Ele não sabe falar direito. Vive se atracando com todo mundo no chiqueiro. Ele é todo errado! (risos) No fundo, o Crispim é uma criança que não cresceu…

P – O que costuma ser mais difícil para você: fazer um tipo naturalista ou um de composição?
R – Olha, não faço distinção de papéis. O que me interessa mesmo são personagens que fogem do convencional. Gosto de verticalizar a minha interpretação. O que isso quer dizer? Que gosto de radicalizar, de buscar alternativas anti-convencionais, de meter o pé na jaca. Ator não pode ter medo de errar, entende? Ou você erra com as dez ou acerta com as dez. Pessoalmente, prefiro errar com as dez a ficar no meio-termo. Por isso, personagens como o anti-galã, o louco, os “outsiders”, enfim, são sempre mais interessantes. O Crispim, na minha opinião, é um típico anti-galã. Para fazê-lo, inclusive, tive de me despir de toda e qualquer vaidade. Não cabia querer ficar bonitinho em cena. Para falar a verdade, o Crispim é quase um desenho animado. (risos)

P – E por falar em desenho animado, o bordão “Miiiiirna!” foi inspirado no “Viiiiiilma!”, repetido à exaustão pelo Fred Flintstone?
R – Olha, para ser honesto com você, só me dei conta disso depois que já tinha rolado. Logo no comecinho, nem associei uma coisa à outra. Só depois da estréia, é que a ficha caiu! Na verdade, esse bordão foi uma espécie de criação coletiva. Ele já veio no texto, mas procurei uma entonação em comum acordo com o Jorginho. Aliás, é bom que se diga que tudo ali é criação coletiva. Um não vive sem o outro. E isso vale também para o núcleo caipira da novela. O Crispim não sobreviveria sozinho. Eu, a Fernanda e o Emiliano formamos uma trinca da pesada!

P – Vocé rompeu o ligamento do joelho numa das primeiras gravações da novela. Como aconteceu?
R – Isso aconteceu na primeira cena de briga que tive com Francisco Fortes, o ator que interpreta o personagem Pedro Charreteiro. Foi horrível porque ele também caiu e machucou a cabeça. Na hora, não pedi dublê, achei que podia gravar a cena sozinho. Acabei indo parar no hospital e não pude operar. Senão, teria de sair da novela. Na primeira folga que eu tiver, opero o joelho.

P – Você já passou por alguma situação mais inusitada nas ruas?
R – O tempo todo. Inclusive, deixei de ser o Emílio, mas também não me chamam de Crispim nas ruas. Na verdade, virei “Ô, Miiiirna!”, é mole? Esse bordão pegou mesmo… Agora, respondendo à sua pergunta, a situação mais engraçada aconteceu quando eu estava na praia tomando uma água de coco quando apareceu um vendedor de queijo coalho. O sujeito parou e começou a conversar comigo, dizendo: “Meu rapaz, você está certo porque eu também não deixo a minha irmã namorar.” E falando sério, sabe? “Também sou igualzinho a você. Se for preciso, boto os caras para correrem. Não pode dar mole, não!”. E o sujeito não parava de falar… “Lá onde eu moro, não tem chiqueiro para jogar, mas eu dou porrada. Se chegar perto da minha irmã, apanha mesmo!”. Aí, fiquei pensando: “Meu Deus, e pensar que estamos em 2005!”. Depois de meia hora, até pensei em falar para ele que tudo aquilo não passava de brincadeira, que eu era ator de novelas, mas achei melhor não contrariá-lo. (risos)

P – Ano que vem, você completa uma década de carreira na tevê. Que balanço faz desses 10 anos?
R – Olha, rapaz, como a carreira de muitos outros atores, também oscilo entre personagens maravilhosos e outros nem tanto. Mas, no final das contas, acho o saldo positivo. Na Globo, fiz O Rei do Gado, Anjo Mau, Esperança. Esperança, aliás, pode até não ter feito muito sucesso em termos de audiência, mas, para mim, foi importante trabalhar com o Luiz Fernando Carvalho. Também fiz novelas na Record nesse período. Ou seja, não parei. O fundamental, na minha opinião, é estar sempre trabalhando e, principalmente, poder escolher o que você faz. Porque também não dá para ficar atirando para todos os lados. Senão, o ator cai na mesmice e começa a se repetir. Houve um momento na minha carreira, inclusive, que tive receio de só fazer italianos na tevê. Até que apareceu o Crispim. Ele é uma vitória porque estou tendo a oportunidade de fazer algo completamente novo.

P – E o que você espera dos próximos dez anos?
R – Espero ter saúde para continuar trabalhando cada vez mais. E espero também poder interpretar um grande vilão. Já sei o que é ser amado nas ruas porque Crispim é um grande sucesso. Agora, quero ser odiado, levar bolsada, o escambau. Não vejo a hora de fazer um vilãozão daqueles…

O início do caminho
Emílio Orciollo Netto sempre quis ser ator. O porquê, exatamente, ele nunca soube. Só veio a descobrir em 1986, ao assistir à minissérie Anos Dourados, de Gilberto Braga, e ficar encantado com a atuação de Malu Mader e Felipe Camargo, entre outros. “Viver vidas diferentes da minha é o que eu queria fazer para o resto da vida!”, pensou.

Disposto a seguir seu caminho, passou a freqüentar o teatro do clube do qual era sócio. Para tanto, conversou com Sérgio Figueiredo, que integrava o grupo amador do tal clube. Por coincidência, Sérgio era pai da atriz Graziella Moretto, que ajudou Emílio na réplica de sua prova para a Escola de Arte Dramática da USP, em 1993. “Foram mais de mil inscritos para 20 vagas. Mas eu passei”, recorda.

Convencer o pai, o jornalista Sérgio Orciollo, de que seria ator, porém, não foi tão fácil. Tanto que, para satisfazer a família, prestou Vestibular também para Administração. No dia da formatura, deu o diploma de presente para o pai e foi à luta. “Achavam que eu morreria de fome”, lembra. Mas Emílio não morreu. Logo, começou a fazer teatro e, em seguida, tevê. O convite para atuar em O Rei da Gado aconteceu quando Emílio ainda estava na USP. Dos que fizeram testes para a novela, apenas ele, Caco Ciocler e Marcello Antony foram aprovados. Caco e Marcello tiveram a sorte de entrar já na primeira fase, mas Emílio, não. “Disseram que tinha um rosto muito jovem para a novela. Foi uma maneira elegante de ser descartado”, acredita.

Pouco depois, Emílio embarcava para a Itália com a tarefa de gravar as primeiras cenas do jovem Giuseppe Berdinazzi ao lado do veterano Raul Cortez. “Quase não dormi aquela noite”, diverte-se.

Em busca da diversidade
O desempenho de Emílio Orciollo Netto em O Rei do Gado foi tão convincente que, durante meses, a pergunta que ele mais ouviu foi: “Você é italiano?”. “Não, sou ator”, costumava responder. Não por acaso, voltou a interpretar um italianinho em Esperança, também de Benedito Ruy Barbosa. “Sou de família italiana. Lá em casa, por exemplo, não pode faltar uma pasta à putanesca”, garante.

Mas Emílio não é ator de um personagem só. Em seu currículo, constam também Bruno Novaes, o “videomaker” politicamente correto de Anjo Mau, da Globo, e Alex, um viciado em drogas de Roda da Vida, da Record.

Ao longo da carreira, Emílio exercitou seu talento em outras frentes. Em 1999, durante temporada de seis meses nos Estados Unidos, apresentou o Teen Choice Awards, programa da Fox que premia os melhores atores e cantores escolhidos pelo voto dos adolescentes. De volta ao Brasil, exerceu atividade parecida na Record, quando comandou o Festival de Verão em 2001. Ano passado, foi escolhido para apresentar a nova temporada do Globo Ciência, da Globo. “Infelizmente, não deu para conciliar com as gravações da novela, mas é uma porta que eu faço questão de deixar entreaberta”, avisa ele.

Ano que vem, Emílio volta a trabalhar no teatro e no cinema. Nos palcos, vai estrear o espetáculo O Beijo do Asfalto, de Nelson Rodrigues, e, na telona, vai atuar no longa Feliz Natal, de Selton Mello. No filme, Emílio interpreta Caio, um típico paulistano de classe média que, consumido pelas drogas, abandona tudo e foge para o interior de São Paulo. Sete anos depois, volta para a casa a fim de acertar as contas com o passado justamente na noite de Natal. “Droga é uma das piores coisas que vi na vida. Na minha adolescência, cansei de ver amigos terminarem no fundo do poço por causa delas”, lamenta.

Fonte: Super Zap News

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